Associação Cuiabá de Kendo

Textos sobre o Kendo

TEXTO I

Destacando Harada Genji (Journal: 2.2 Hanshi Says - Featuring Harada Genji).  Publicado originalmente na Kendo World Magazine, Vol. 2 ed. 2, 2003. Traduzido para o inglês da série Kendo Jidai por Alex Bennett.

Nascido na provincia de Iwate em 1925, Harada sensei iniciou seu estudo de Kendo após ingressar na escola secundária. Em 1943, ele ingressou no Colégio de Educação Física de Tóquio (Universidade de Tsukuba). Graduando-se 4 anos depois, ele começou a lecionar no ensino secundário na província de Kanagawa, e mais tarde voltou para a sua província natal. Em 1985 parou de lecionar. Ele treinou seus alunos com grande sucesso nos campeonatos escolares, e foi também um competidor muito bem sucedido, fazendo numerosas participações no Campeonato Nacional de Kendo do Japão (All Japan Championship), Encontro Nacional de Esportes (National Sports Meet), Tozai Taiko, Torneio Meijimura 8o Dan entre outros. Ocupou freqüentemente posições administrativas na AJKF, All Japan School Kendo Federation, e federações locais.

 

1. Como você pode sacrificar a si próprio (entregar-se) em um ataque?

À medida que você progride com o seu treinamento você gradualmente melhora seu vigor e o nível de sua técnica. Um exame de graduação é um teste da técnica que deve ser vista se você está preparado para aquele grau (Dan) particular. Quando faço parte de uma banca, eu presto particular atenção se o candidato está apto a fazer uso de tudo que ele tem. Isto também possui vários níveis. Por exemplo, um candidato a shodan tem de ser capaz de atacar implacavelmente. Um candidato a nidan deve ser capaz de fazer o mesmo com mais intenção baseado em um entendimento rudimentar de semê. O denominador comum de tudo é ter a habilidade para sacrificar-se (entregar-se) por completo no ataque uma vez que este é iniciado.  Isto é chamado “sutemi”. O maior grau, o maior nível de “ri” (razão, princípios) é exigido. Em outras palavras, se o seu oponente tem um forte kensen e você ignora isso e se entrega em um ataque, por essa razão este não é considerado um ataque com sutemi. Um ataque, especialmente em altos níveis, deve ser realizado com espírito de entrega, mas este deve ser desferido apenas se todos os critérios estão de acordo com “ri”. Em outras palavras, o ataque nunca deve ser aleatório.

Dignidade e qualidade de estilo em kendo podem ser obtidas apenas através desse tipo de treinamento.

Do Kyoto Taikai (torneio anual de kendo realizado no mês de maio) de 1974, eu tenho uma lembrança da luta entre Hanshi Ogawa Chutaro e Hanshi Kurozumi sensei fortemente gravada em minha mente.  Esse foi um dos mais impressionantes combates que já vi. Eu pude assistir a luta da primeira fila, e ainda me lembro estremecendo de emoção como a luta prosseguiu. Eles se encararam a uma distância um pouco maior do que issoku-itto-no-mai (distância de um passo um golpe). A pressão que eles aplicaram um sobre o outro era intensa. Após algum tempo, Ogawa sensei, no seu kamae caracteristicamente recuado, baixou seu kensen e deslizou com três pequenos passos em direção ao espaço de Kurozumi sensei e então executou um perfeito ataque a men de livros de kendo. O ataque desceu subitamente em sua cabeça e quase vi como se fosse feito em câmera lenta. Kurozumi sensei inclinou sua cabeça em deferência, e os dois se afastaram lentamente recuando até suas marcas de início. A platéia inteira ficou espantada em um misto de admiração, respeito e temor e então explodiu em aplausos em reconhecimento ao maravilhoso espetáculo que todos nós tivemos o privilégio de testemunhar. Para ser honesto eu não estava exatamente certo do significado do que eu tinha acabado de ver, mas entendi que eu tinha acabado de assistir a um dos profundos mistérios do kendo.      

No ano seguinte, encontrei Ogawa sensei em um seminário em Morioka, e tive a oportunidade de perguntar a ele sobre a luta em Kyoto. “Ah aquilo? Sim, eu não estava mesmo consciente de minhas ações. Foi como se eu nem mesmo estivesse lá”.

Eu não sabia com certeza o que ele queria dizer, mas refleti sobre sua resposta por muitos anos. Finalmente eu cheguei à conclusão de que antes do ataque, durante o ataque e depois do ataque ele tinha se entregado de corpo e alma. O “sutemi” supremo.

Eu também tive uma oportunidade de perguntar a Kurozumi sensei sobre essa luta.

“Eu não podia fazer nada contra aquele men. Não foi um golpe destruidor que despedaçou minha cabeça, mas sim um golpe agradável e gentil”.  Eu fiquei emocionado pela forma como aqueles dois grandes mestres se respeitavam tanto. Eu passei seus comentários para Ogawa sensei,  e ele inclinou a cabeça assentindo em silêncio.

Dar o máximo de si é sempre uma tarefa difícil, especialmente em um exame de graduação onde você está inevitavelmente nervoso com todos aqueles olhos observadores vigiando todos os seus movimentos. Se você puder executar seu melhor kendo sob essas circunstâncias, isso tem de ser de valor para você na sua vida diária. Ogawa sensei uma vez disse ”dar o máximo de si no kendo é vida diária”. Nunca foram ditas palavras tão verdadeiras. Contudo, tentar derrotar seu oponente com truques baratos nunca levará a esse tipo de crescimento espiritual.

Nós com freqüência dizemos para fazer “o bom kendo”. Contudo, não existe tal coisa como kendo “bom” ou “ruim” por si só.  Kendo é intrinsecamente uma boa coisa. O que o faz parecer bom ou ruim depende da disposição mental das pessoas que o praticam. A mente está sempre se desenvolvendo, e esse é o porquê da grande ênfase dada ao estado mental à medida que progredimos mais e mais a cada graduação que obtemos no kendo. “Sutemi” se baseia nesse desenvolvimento, e é algo que deve ser perseguido direto sem interrupção até o fim.

 

2.  “Sen” e “Rinki-ohen” -  Tomar a iniciativa e habilidade de reagir a qualquer situação (Sen = Quando o oponente percebe uma fraqueza e inicia um ataque, você vence por golpear de volta antes do golpe do oponente ser bem sucedido).

O lendário Mochida Seiji sensei sempre praticou kendo ajustando sua visão em alcançar sen, a iniciativa. Esse é o conceito mais importante no kendo. A sutileza no kendo está na luta para ter sen, e isto é o que os examinadores procuram.  A partir do momento em que você tem sen, você deve ser capaz de reagir a todos os movimentos que seu oponente fizer.  Ao contrário, se você não é capaz de lidar com os movimentos de seu oponente, isto é a prova de que você não atingiu o controle do sen, e precisa treinar mais.

O segredo para entender e ser capaz de conseguir sen, é em primeiro lugar treino, e em segundo, mais treino.  Para este propósito, eu aproveito todas as oportunidades para treinar em todos os dojos que eu posso com a atitude de que “todos são meus professores”. Eu também me esforço para realizar o primeiro corte bem sucedido. Iniciantes e crianças sempre fazem ataques incessantes, sem pensar no que estão fazendo. Eles estão impenetráveis às sutilezas do kendo, e isto faz com que seja extraordinariamente difícil conseguir sen. Em contrapartida isto é muito significativo para aprender a como lidar com esta situação. Quando encaro tais oponentes, tento lembrar como era no início, quando eu comecei a praticar kendo, e treino adequadamente. Ao treinar com crianças, tento não destruí-las, e sim aliviar meus golpes e atingi-las levemente. Isto os encorajará a se esforçarem mais.

Apesar de estar na posição de professor, eu acredito firmemente que o instrutor deve aprender e estudar junto com seus alunos. Eu percebi a importância disso através de meu professor, Yokoyama sensei, quando eu estava na escola ginasial em Iwate. A menos que algo importante acontecesse, ele sempre tentava estar no dojo todos os dias. Nunca compreendi como isso era difícil até que eu mesmo me tornasse um instrutor, mas isso é importante para os alunos.

Quando eu estudava no Colégio de Educação Física de Tóquio, fiquei sob a instrução de Mihashi sensei. Ele também era um treinador dedicado.

“Conseguir um golpe correto quando você não consegue mais nem sequer reunir força suficiente para se mover é o que você tem que se esforçar para conseguir”.

Em última análise, um verdadeiro ippon, ou ponto, é aquele que é registrado quando se está em um estado de não-mente, inconsciente de suas ações. A habilidade para fazer isso ou o que eu ganhei disso é um dos meus maiores bens.

Voltando ao tópico sen, ser capaz de capitalizar a obtenção do sen e reagir adequadamente, o posicionamento correto de sua mão esquerda e usar seu pé esquerdo no semê é de vital importância. Isto é outra coisa que eu presto atenção quando estou em uma banca de julgamento.

Quando eu fui reprovado pela segunda vez em meu exame para 8o dan, eu fiquei perdido sobre o que fazer. Recebi conselhos de três grandes mestres, e embora suas palavras fossem diferentes, eles me falaram essencialmente a mesma coisa.
“Seu ombro esquerdo está alto demais”.
“Seu pé esquerdo está apontando para fora, e seu cotovelo esquerdo está alto demais”.
“Sua mão esquerda está alto demais, e seu pé esquerdo está ineficaz”.

Tudo se referia de fato ao posicionamento da minha mão esquerda e o uso de meu pé esquerdo. Em outras palavras, minha mão esquerda não estava posicionada em frente ao meu seika-tanden (região inferior do abdômen), e eu não estava usando meu pé esquerdo como um ponto central para o meu semê e meu movimento.

Eu imediatamente tratei de aplicar esse conselho em meu treino, mas não foi fácil. Eventualmente decidi apenas deixar e não me preocupar se eu consegui acertar ou não. Eu pensei que era capaz de me soltar gradualmente, e conseqüentemente, fui capaz de executar a vontade os golpes com sucesso sem desperdício de movimento.

Freqüentemente é enfatizado que a mão esquerda e o pé esquerdo têm um papel crucial no kendo, e foi uma grande oportunidade para eu reavaliar meu kihon. Em um exame, os candidatos que têm esse aspecto do seu kendo sob controle se destacam, pois seu movimento é poderoso e firme. Quanto a ter sen, isto também tem aplicações na vida diária. Em outras palavras, ter sen na vida se refere a ter um ponto de vista positivo das coisas. Ter uma disposição positiva é a chave para criar seu próprio caminho. Exames de graduação são a mesma coisa.

 

3. Pegar o “ki” do seu oponente e golpear harmoniosamente

Kendo é um conflito de ki. É importante fazer uso do ki do seu oponente. Após chegar aos 40 anos de idade, um sensei uma vez me disse para praticar kendo como se eu estivesse absorvendo a expiração (ki) do meu oponente. Desde então eu tenho me esforçado para conseguir isso, mas foi preciso mais de 10 anos de duro esforço antes que eu fosse capaz de me movimentar harmoniosamente com o fluxo do meu oponente ao invés de me movimentar contra ele. Eu finalmente consegui isso graças a um conselho oportuno de Ogawa sensei.

“Não inspire e mantenha sua respiração no seu abdômen inferior. Deixe-a passar através do abdômen e descer através de seus pés. E então ela subirá fluindo de volta ao seu corpo, e isto é o que você deverá eventualmente segurar dentro de seu tanden. Isto é o ki verdadeiro”.

Interpretei isso como o mesmo que “shinjin no iki” relatado por Takano Sasaburo. Isso não significa reprimir o ki no tanden, mas deixá-lo flutuar e unir-se com o ki do seu oponente. Absorver o ki de seu oponente não tem um significado literal, mas sim o de conseguir sentir todo o seu movimento, o que por sua vez guiará você em seus movimentos.

Finalmente, o melhor conselho que eu posso dar é treinar com um estado de espírito correto. Ogawa sensei uma vez me disse “kendo é keiko.” Guardo isso comigo e treino tão duro quanto possa e tantas vezes quantas eu possa.

Traduzido para o português por Fernando F. F. Ferraz.

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TEXTO II

Texto PUBLICADO NO BRASIL sobre Kendo em 1940.

       Antes de mais nada, acho melhor dar umas explicações preliminares.

       Antes da Segunda Guerra Mundial, não existia a Confederação Brasileira de Kendo (CBK). O que existia era uma organização chamada Hakkoku JûKendo Renmei 伯国柔剣道連盟 ("Federação de Jû(dô)Kendo do Brasil"), que congregava as duas artes marciais japonesas mais proeminentes na época: judô e Kendo. A separação, no Brasil, do judô e do Kendo, aconteceu somente depois do fim da WWII.

       Infelizmente, pouquíssimas pessoas hoje conhecem ou até mesmo têm uma idéia de como eram as coisas daquela época. Principalmente sobre o Kendo, existem poucas informações disponíveis - uma das pouquíssimas fontes de informação é o site da Kendo Brasil, mas mesmo lá existem poucas informações.

       Apesar da distância geográfica entre Brasil e Japão, os treinos aqui eram equiparáveis aos treinos do Japão. O motivo era bem simples: TODOS os senseis eram japoneses e foram treinados lá Só para citar alguns nomes, alguns dos senseis mais famosos da época eram Eiji Kikuchi sensei, 5o dan, Matsumaro Sakurada sensei, 3o dan, Midori Kobayashi sensei, 3o dan, Ryûsuke (Ryûzô) Murakami sensei, 3o dan. O judô era representado por senseis como Ôkôchi sensei (que depois seria 8o dan de judô Kodôkan). Hayashi sensei era praticante de iaijutsu (na época não existia Seitei Iai).

       Vamos lembrar que o significado das graduações da época também era bem diferente da atual. O 1o dan daquela época (shodan) equivaleria mais ou menos ao 3o dan atual.

       Na época, existiam torneios nacionais de Budô e não somente de Kendo ou de judô. Existem algumas anedotas bastante interessantes referentes a esses torneios, mas isso não vem ao caso.

       Em 1940, teve o Oitavo Zen-Haku Budô Taikai 第八回全伯武道大会 ("Torneio Brasileiro de Budô"). E, após o torneio, foi publicado um artigo sobre o treinamento em Kendo voltado para os iniciantes. Eu fiz uma rápida tradução do artigo e gostaria de disponibilizá-lo aqui. É um texto bastante raro e imagino que seja desconhecido da grande maioria das pessoas

       Gostaria de chamar a atenção pela seriedade com que o Kendo era tratado na época. Claro que atualmente, o Kendo também é tratado de forma muito séria, mas algumas nuances são diferentes. O direcionamento dos treinos e o seu conteúdo dentro do Kendo pré-guerra no Brasil (vamos lembrar que estamos falando do Brasil!) era algo bastante rigoroso e não tinha quase nada de esportivo, sendo realmente uma arte marcial. Existem histórias que reforçam a ênfase dada na época sobre o aspecto da arte marcial e do desenvolvimento interno do praticante. A própria declaração da Hakkoku Jûkendo Renmei na revista "Butoku", publicada pela organização, atesta isso.

       Bom, vamos ao artigo de setembro de 1940. Espero que o artigo possa dar mais ou menos uma idéia de como o Kendo era encarado no Brasil nessa época. Os praticantes sérios de Kendo vão notar que as coisas não mudaram muito

       Lembrando novamente que é um artigo voltado para iniciantes.

       DIRECIONAMENTO DO TREINAMENTO PARA OS PRINCIPIANTES

       ANTES DE MAIS NADA, UMA BASE CORRETA, DEPOIS, O APERFEIÇOAMENTO DO KI[1], DO CORPO E DA TÉCNICA

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       Ao ver o Oitavo Zen-Haku Budô Taikai, existem inúmeras coisas que um iniciante deve ter em mente para poder se desenvolver. Mas, ao invés de focar em medidas práticas, como ter um número constante de treinos ou sempre dar o máximo de si, vamos falar um pouco sobre os principais pontos básicos.

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       Um iniciante costuma ter o sonho de se tornar um "yûdansha"[2] de renome ou de se tornar um grande espadachim. Entretanto, vestir depois de pouco ou nenhum tempo de treino os equipamentos e começar a lutar não é de forma alguma o caminho do aperfeiçoamento. Muito pelo contrário, isso faz com que os talentos naturais de cada pessoa sejam completamente aniquilados, eliminando a capacidade de desenvolvimento da pessoa. Assim sendo, deve-se sempre ter em mente que devem ser tomados os passos corretos e manter um aperfeiçoamento constante para que se possa ter uma compreensão mais profunda da arte.

       E o caminho para o desenvolvimento possui três grandes etapas: a primeira é o treino de base; a segunda é o desenvolvimento físico; e o terceiro é o desenvolvimento em paralelo do espírito e das habilidades.

       Na primeira etapa, que é o treinamento de base, deve-se treinar corretamente a postura, o kamae[3], a movimentação corporal, a forma de empunhar a espada (shinai)[4], a forma de corte e estocada, o uchikomi[5] e o kirikaeshi[6], entre outros aspectos.

       Quanto mais longo for este processo, maior vai ser o desenvolvimento que o praticante irá atingir posteriormente. Por outro lado, quando este processo não é muito enfatizado, obviamente o desenvolvimento do praticante será pequeno. Além disso, como este processo é algo que não desperta interesse, é normal que existam pessoas que desistam no meio. Isto deve ser fortemente evitado.

       Se formos nos aprofundar nas nuances desta primeira etapa, temos os seguintes fatores:

       1) Postura. A postura deve partir do "shizentai"[7], ou seja, mantendo o corpo reto de forma sincera. Os dois cotovelos devem estar levemente estendidos, a parte superior do corpo deve estar apoiada firmemente sobre os quadris, o queixo deve estar retraído e deve-se colocar força no "tanden"[8]. Os dois ombros devem estar sem força e levemente abaixados, a cabeça deve estar olhando diretamente para a frente. E a posição das pernas deve estar de acordo com o tamanho do seu passo (a perna direita à frente, os dois pés paralelos; a distância entre as pernas deve ser de aproximadamente 3 cm).

       2) Deve-se treinar nesta postura até que se possa avançar e recuar de forma rápida, fluida e leve. A movimentação corporal é importante.

       3) Deve-se treinar a forma com que se deve segurar a espada (shinai) e posicioná-la com relação ao seu corpo em kamae. Deve-se segurar leve, como se estivesse torcendo um pano. A ponta da espada deve estar na altura da sua garganta e o seu punho esquerdo deve estar a um punho de distância do seu umbigo.

Este kamae, chamado de "seigan"[9] influencia profundamente tanto no aspecto técnico quanto no aspecto interior do praticante. Por isso, este kamae deve ser treinado corretamente.

       4) A forma de golpear. Para o primeiro golpe, o "shômen"[10], deve-se segurar a espada, erguê-la sobre a cabeça e cortar verticalmente para baixo. Ou seja, deve-se treinar de forma a corrigir o "hasuji" (ângulo de corte), colocar força no baixo ventre e cortar com toda a energia do corpo e da mente.

       O treinamento para cortar o "kote"[11], o "dô"[12] e o treinamento para o "tsuki"[13] é análogo. É de suma importância neste processo que se aprenda a forma de corte, o "tenouchi"[14] correto, incluindo a mão que empurra, a mão que puxa e a torção do pano.

       Mesmo com um shinai na mão, deve-se sempre agir como se estivesse portando uma espada de verdade para cortar o oponente. Esta é a diferença fundamental entre a verdadeira prática do Kendo e uma mera troca de golpes de espadas de bambu. As críticas existentes atualmente (N.T.: estamos falando de 1940!) sobre os rumos que o Kendo está tomando certamente são referentes a este ponto.

       Uma vez que os movimentos básicos do corpo e da espada estiverem assimilados, o passo seguinte é o treinamento exaustivo de "uchikomi" e "kirikaeshi". Este treinamento permite aprimorar a técnica, fortalecer o físico, principalmente dos braços e dos quadris, aperfeiçoar a movimentação corporal, sincronizar o "shin"[15], o "ki" e o "riki"(força) e desenvolver um espírito forte, corajoso e inquebrantável. Por isso mesmo, um iniciante deve se lançar a este treinamento com o máximo de vontade, determinação e concentração.

       Diz-se que somente este treinamento de "uchikomi" e "kirikaeshi" leva de dois a três anos de treinos intensivos.

       A segunda etapa consiste não apenas do aperfeiçoamento das técnicas, mas também do "ki" e do físico. O treinamento passa a ser centrado em meios envolvendo um oponente à sua frente. Começa a surgir aqui o valor e o aperfeiçoamento prático das técnicas. Entretanto, deve-se manter em mente que todas as técnicas devem ser treinadas e assimiladas, sem se ater apenas às suas técnicas preferidas.

       Além disso, deve-se pesquisar também o "rigô"[16] das técnicas, treinando sempre contra pessoas mais fortes, ou seja, os mestres e os mais velhos. É vital que se treine muito o "kakarigeiko"[17] para que se possa ter uma postura imponente no ataque e para forjar as técnicas. Além disso suportar o sofrimento deste tipo de treinamento também faz parte do verdadeiro aperfeiçoamento.

       Paralelamente, deve-se praticar ocasionalmente o "shiai", o combate em si, para exercitar os reflexos, a tomada de decisões e a coragem.

       A terceira etapa consiste em um burilamento holístico do "ki", do corpo e das habilidades. Nesta etapa, o praticante deve pesquisar e experimentar diversas possibilidades, visando o amadurecimento e a naturalidade das técnicas, colocando todas as suas forças no desenvolvimento do seu espírito para o aperfeiçoamento, refinamento e molde do seu caráter. Apenas a partir deste ponto é que se começa a se adentrar no verdadeiro campo do Kendo.

       Assim, o esforço permanente e a motivação/determinação férrea a cada etapa é fundamental, não apenas para os iniciantes, mas para qualquer praticante que busca o caminho e deseja se aperfeiçoar. Em particular, o entusiasmo sincero do iniciante é algo que deve ser alimentado até o final.
 

       Notas:

       [1] "Ki" é um conceito que não possui equivalente em português. Literalmente seria "ar", mas neste caso, é um conceito que engloba vários aspectos como energia, atitude e determinação.

       [2] Pessoas graduadas. Seria o equivalente a "faixa preta", em uma tradução bastante pobre.

       [3] Formas e posturas de segurar a espada. No caso do Kendo, existem cinco posturas fundamentais: Chûdan, Gedan, Jôdan, Hassô e Wakigamae.

       [4] A shinai é o equivalente a uma espada de bambu para treinamento. É bastante interessante notar que o artigo sempre se refere primariamente à katana (espada), deixando a palavra "shinai" sempre entre parênteses.

       [5] Treinamento para golpear o oponente.

       [6] Um dos treinamentos mais fundamentais do Kendo, consistindo de seqüências de golpes visando a têmpora, entre outras coisas.

       [7] Postura natural, ereta e totalmente relaxada.

       [8] A região do triplo aquecedor. Está localizado mais ou menos a três dedos abaixo do umbigo.

       [9] Atualmente chamado também de "chûdan". Dependendo do estilo, há diferenças entre "seigan" e "chûdan".

       [10] Golpe visando a cabeça do oponente.

       [11] Golpe visando o antebraço do oponente.

       [12] Golpe visando o torso do oponente.

       [13] Estocada.

       [14] "Tenouchi" significa literalmente "interior da mão". Não tem um equivalente em português, mas seria o equivalente à dinâmica das mãos e dos pulsos.

       [15] "Shin" ou "Kokoro", seria o equivalente à mente, o espírito.

       [16] Seriam os princípios que regem a técnica, a sua essência.

       [17] É um dos treinamentos mais exaustivos do Kendo, onde o praticante deve atacar sem parar, sem se preocupar com a defesa.

Texto escrito por Luiz Kobayashi

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TEXTO III

Texto PUBLICADO NO BRASIL sobre budô EM 1935

       Gostaria de disponibilizar aqui uma matéria publicada no Brasil em 1935 sobre budô. O autor do texto é Ôkôchi Tatsuo 大河内辰夫 sensei, um dos fundadores da Hakkoku JûKendo Renmei e um dos maiores nomes do judô (Kôdôkan) brasileiro antes da Segunda Guerra Mundial.

       Apesar da matéria ter sido escrita por um sensei de judô, ela se refere a budô de um modo geral e eu acho que tem TUDO a ver com Kendo e kenjutsu.

       É um texto de mais de 70 anos atrás, mas que tem coisas muito atuais, na minha opinião. Por isso, achei que valia a pena apresentar esse texto, especialmente porque é MUITO difícil encontrar textos publicados NO BRASIL sobre budô antes da Segunda Guerra Mundial.

       É também, de certa forma, um resgate do patrimônio cultural que os imigrantes japoneses trouxeram ao Brasil.

       E vamos ao texto do Ôkôchi sensei. O texto original, como se pode imaginar, está em japonês, publicado em um dos jornais da colônia japonesa da época. A tradução é minha.

       "(...)Dois anos atrás, juntamente com pessoas como o Sr. Murakami[1], fundamos a Hakkoku JûKendo Renmei (HJKR). O objetivo principal dessa Confederação era, e é, a existência de uma entidade que realmente fosse de confiança para a formação do caráter e do desenvolvimento interior da pessoa.

       Mesmo hoje em dia, esse princípio básico continua sendo totalmente válido. Desta forma, deve-se adotar todo o rigor e cuidado necessários para que as pessoas não fiquem presas meramente à técnica e às apresentações, esquecendo-se do essencial, que é o desenvolvimento espiritual.

       (...) mesmo que nunca tenhamos vestido um quimono de judô, e mesmo que nunca tenhamos segurado em uma shinai, sabemos o que é o espírito de budô, da arte marcial. Isso é o espírito das tradições japonesas, fazendo parte do cerne cultural do país. Foi exatamente graças a tal espírito que o Japão conseguiu se expandir e se desenvolver em apenas algumas décadas.

       Acreditar que o budô se restringe a técnicas é um insulto ao espírito do budô. Nós devemos sempre trilhar o nosso caminho de acordo com o verdadeiro budô, com o verdadeiro espírito do budô, no sentido mais amplo do termo.

       Uma pessoa que está filiada a uma confederação como a HJKR deve obrigatoriamente ser uma pessoa de mais alto caráter e de uma integridade indubitável. Como árbitro, eu sempre me pauto por essas diretrizes. A vitória ou a derrota em uma luta é algo totalmente secundário.

       E o espírito do Budô passa a viver quando é utilizado na nossa vida cotidiana, uma vez que somos pessoas que vivem dentro de uma sociedade. Praticantes de artes marciais que não possuem esse espírito de budô não passam de meros prestidigitadores, de acrobatas.

       Uma arte marcial que é praticada para impressionar os outros, ou um praticante que se desvia do espírito do budô e utiliza técnicas de forma a convencer os juízes de que venceu uma luta não possui rigorosamente nenhum valor. (...)"

       [1] Murakami Ryûsuke, 3o dan de Kendo na época e um dos fundadores da Hakkoku JûKendo Renmei em 1933.

Texto escrito por Luiz Kobayashi

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